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MÁQUINA MORTÍFERA - SAGA REVIEW


Arma letal

Texto: M.V.Pacheco

Revisão: Thais A.F. Melo


O cinema é uma poderosa ferramente para retornarmos no tempo. Momentos marcantes da vida podemo facilmente ser associados a filmes marcantes. Por exemplo, uma pessoa querida minha gravou o filme Nova York - Terra de Ninguém, um filme com Tommy Lee Jones que passou no Supercine, séculos atrás, precisamente dia 10/06/1989.

Quando fui pegar o filme para assistir, ela havia alugado dois outros, Máquina Mortífera e Jogo Bruto. E foi aí meu primeiro contato com esta obra-prima de ação, impecável em todos os sentidos.

🔷Máquina Mortífera (1987)

Na trama, Martin Riggs (Mel Gibson) é um tira ensandecido que está sempre vivendo no limite. Por outro lado, o policial Roger Murtaugh (Danny Glover) é um homem tranquilo, que espera apenas a sua aposentadoria chegar. Apesar das diferenças, eles tornam-se parceiros para lutar contra uma quadrilha de traficantes de drogas, composta por ex-militares da guerra do Vietnã.

Este primeiro Máquina Mortífera foi um filme que assisti 56 vezes num só ano. E continuei revendo ao longo da vida, fazendo dele um dos que mais revi. E de certa forma, me encontrei num ponto da minha vida que ecoou algumas atitudes do personagem Martin Riggs. Eu perdi uma pessoa em um acidente (como ele) e uma namorada de câncer, me proporcionando momentos de completa loucura, com atitudes no limite, tal como o personagem. 

Em uma cena, Riggs pula de um prédio com um suicida. Eu pulei de um prédio de 3 andares, porém por um motivo sem menor importância (em uma daquelas brincadeiras de pega-pega, eu era o último, que poderia "salvar todos"). Parece uma comparação boba, mas situações que mexem com nosso emocional podem te levar a situações extremas.

Mas no meu caso, como sempre dava certo, eu era mais admirado pela coragem do que analisado como um caso em que se rompeu algo, como o personagem Riggs.

Insanidade

Máquina Mortifera é basicamente uma história de uma família grande aceitando em sua intimidade, um lunático. Algo como Do Mundo Nada Se Leva, de Frank Capra, só que no clássico de 1938, é o inverso, a família que é lunática. 

Com o passar dos filmes, novos elementos vão sendo inclusos, e a cena final é justamente uma foto de família. Ou seja, o roteiro, de maneira genial, descontroi o personagem de Riggs, tira Roger de sua zona de conforto, e mostra como a vida é melhor se for compartilhada. 

Estou velho demais para isso.

Mel Gibson e Bruce Willis foram considerados para os papéis um do outro em Máquina Mortífera (1987) e Duro de Matar (1988) , e ambos os filmes foram produzidos por Joel Silver, com música de Michael Kamen. Foi oferecido a Willis o papel de Martin Riggs, mas recusou, e um ano depois ele fez Duro de Matar (1988). Gibson foi considerado para interpretar John McClane, junto com seus co-estrelas de Os Mercenários 3 (2014), Harrison Ford , Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, mas todos recusaram. Coincidentemente, o roteiro de Duro de Matar 3: A Vingança (1995) foi planejado para ser uma sequência de Máquina Mortifera.

Na cena em que Riggs está pensando em suicídio, há uma bala real na câmara que Mel Gibson estava apontando para sua cabeça, pensando que isso permitiria uma maior sensação de retratar a cena de forma realista e dramática. Embora as balas de festim não disparem tiros reais, a ejeção de ar e detritos do cano da arma pode (e tem) ferido fatalmente pessoas de muito perto.

O personagem de Danny Glover (Sargento Roger Murtaugh) tem 50 anos no filme, mas Glover tinha apenas 40 anos em 1986. Roger Murtaugh não foi escrito pensando em nenhuma etnia. Danny Glover foi sugerido por Marion Dougherty após vê-lo em A Cor Púrpura (1985). 

Já Mel Gibson tinha apenas 30 anos quando o filme foi filmado, embora seu personagem Riggs devesse ter 38. Durante a pré-produção, Mel Gibson e Danny Glover acompanharam os policiais do Departamento de Polícia de Los Angeles, e Richard Donner consultou o Departamento do Xerife do Condado de Los Angeles para garantir um retrato autêntico da força policial.

Família

O filme busca a humanização dos personagens de muitas formas. E todas nunca vistas em um filme de ação como este. Como na cena em que Riggs espera as roupas secarem e ouve o pedido de desculpas de Roger. Ou quando Trish (esposa de Roger), deixa um ovo cair no chão. Ou ainda quando discutem sobre como a comida de Trish é ruim. 

E se consideramos que John McClane em Duro de Matar foi ovacionado por ser um herói que tem medo, sangra e quase morre várias vezes, fazer filmes de ação com personagens demonstrando traços reais, era o que o público queria na época. 

Shane Black, recém-formado pela UCLA, escreveu o roteiro em meados de 1985. Seu agente enviou para o produtor Joel Silver, que adorou a história, e trabalhou com Black para desenvolver ainda mais o roteiro. Black atuou em Predador (1987), pouco tempo depois (curiosamente, Danny Glover atuou novamente com Gary Busey em O Predador 2: A Caçada Continua (1990), onde Glover voltou a interpretar um policial, e Gary Busey a interpretar um ex-soldado das forças especiais).

Nos primeiros rascunhos do roteiro, Riggs e Murtaugh eram personagens muito mais sombrios, com histórias sombrias.  Ambos tiveram flashbacks de seu tempo no Vietnã, com Murtaugh, em um ponto, lembrando como ele acidentalmente matou um jovem soldado com as próprias mãos durante intenso treinamento militar, mesmo antes de ir para a guerra, e Riggs lembrando como ele era realmente uma arma letal, e quantas pessoas ele matou trabalhando como assassino para a CIA, razão pela qual os soldados dos EUA e VC o consideravam uma lenda. 

Richard Donner percebeu que não importava quantos rascunhos ele escrevesse, o roteiro original ainda era sombrio demais, então ele trouxe o roteirista Jeffrey Boam, a fim de adicionar cenas de humor. 

Donner, o diretor a frente do seu tempo...

Um dos exemplos mais sutis pelos quais o filme sugere diferenças entre os dois personagens principais é a maneira como Murtaugh (Danny Glover) usa um relógio no pulso esquerdo e Riggs (Mel Gibson) usa um relógio no direito. Mel Gibson é destro e normalmente usaria um relógio no pulso esquerdo.

O telefone usado por Murtaugh no apartamento de Amanda Hunsaker é um Portable Radio Shack Modelo 17-1003, lançado em 1986. Este é o primeiro filme a mostrar um celular moderno na história.

Até hoje, o cinema de ação aprende (mas não pratica) com a forma que o diretor executa as cenas de ação. Há dezenas de pequenos detalhes que formam o todo de sucesso, como a cena em que em Riggs toma o tiro na rua, com cortes que fazem a sequência do impacto da bala e subsequente caída no chão do personagem mais extensa e dinâmica. Noutro momento, quando Joshua mata Michael Hunsaker, Riggs inicia uma sequência de tiros, com um simples apoio de mão na árvore, porém nunca visto em filmes anteriores.

O próprio plano sequência inicial, que culmina com a cena dentro do edifício, é um belo cartão de visitas para o que estaria por vir. Os atores foram treinados em artes marciais. A coreografia de luta foi testada pela primeira vez nos dublês Mic Rogers e Shane Dixon. A sequência de ação final do filme, envolvendo a briga entre Martin Riggs e Joshua, foi filmada durante quatro noites completas, filmando do anoitecer ao amanhecer.

Desde os estágios iniciais de pré-produção, Richard Donner queria que a sequência final da luta fosse única, mas também que fizesse uma declaração forte sobre os personagens envolvidos. Coincidentemente, o assistente de direção Willie Simmons tinha um grande interesse em formas incomuns de artes marciais e convidou vários praticantes para o set para fazerem demonstrações para Donner. 

O resultado foi a contratação de três assessores técnicos, cada um mestre em um determinado estilo de artes marciais. Cedric Adams foi o primeiro especialista contratado. "Adams achou que a melhor maneira possível de mostrar o quão letal Riggs realmente é - é mostrar seu domínio de uma forma de artes marciais nunca antes vista na tela", disse Donner. Adams ensinou aos atores os movimentos da Capoeira. 

Um segundo consultor técnico, Dennis Newsome, trouxe o jailhouse rock para a sequência da luta. O terceiro assessor técnico foi Rorion Gracie, especializado em Jiu-Jitsu brasileiro. 

Easter eggs:

Enquanto comem cachorro-quente numa esquina, antes do chamado do suicida, Riggs e Roger andam em direção ao carro. Ao fundo, podemos ver que em um cinema está passando Os Garotos Perdidos, filme lançado naquele ano e produzido por Donner.

Um clipe de Contos de Natal (1951) é exibido na casa de Murtaugh. O próximo filme do diretor Richard Donner foi a releitura moderna Os Fantasmas Contra Atacam (1988) com Bill Murray.

O personagem de Mitchell Ryan se chama Peter McAllister. O pai de Kevin McCallister (Macaulay Culkin) em Esqueceram de Mim (1990), interpretado por John Heard, chama-se Peter McCallister. Joe Pesci, que interpreta Harry, o ladrão em Esqueceram de Mim 1 e 2, interpretou Leo Getz em Máquina Mortífera 2, 3 e 4.

Murgaugh pergunta ao garoto se ele gosta de GoBots. Esta foi uma série de brinquedos parecidos com Transformers, seguidos por uma série de desenhos animados. Roger saberia disso pelo que seus filhos assistiam na televisão.

A posição de Amanda Hunsacker no carro após cometer suicídio é baseada nas fotos conhecidas como The Most Beautiful Suicide: em 1º de maio de 1947, a contadora Evelyn McHale, de 23 anos, pulou do 86º andar do Empire State Building. O aspirante a fotógrafo Robert Wiles tirou quatro fotos do cadáver, que se tornaram icônicas após serem publicadas em 12 de maio daquele ano na capa da revista Life com o título, “O suicídio mais bonito”. A causa do suicídio nunca foi descoberta.

O assassinato de Michael Hunsaker, caracterizado por um tiro em uma caixa de gemada, é inspirado no assassinato do senador Jordan em Sob o Domínio do Mal (1962): um tiro em uma caixa de leite.

Murtaugh conta a Riggs que Hunsaker salvou sua vida no Vale Ia Drang em 1965. Mel Gibson mais tarde interpretaria o Coronel Hal Moore em Fomos Heróis (2002) , que é uma adaptação dessa batalha.

Multiverso: Michael Hunsaker revela que trabalhou para a Air America durante a Guerra do Vietnã. Mel Gibson estrelou um filme intitulado Air America: Loucos Pelo Perigo (1990), que é baseado nesta conversa. O filme também tem Robert Downey Jr, que fez mais tarde Beijos e Tiros, dirigido por Shane Black, roteirista de Máquina Mortífera.

O lendário dublê Dar Robinson morreu em um acidente de motocicleta logo após o término da filmagem principal. O diretor Richard Donner dedicou o filme a ele.

E para finalizar.

A relação dos personagens ensaia uma "entrada nos trilhos" no final. A cena mais representativa está no tiro que ambos dão em Joshua, ao mesmo tempo, demonstrando que a sintonia perfeita em que eles entraram, ainda que sejam figuras imperfeitas naquele contexto.

🔷Máquina Mortífera (1989)

Máquina Mortífera 2 marcou o meu cinema de forma muito particular. Eu fui vê-lo com meus pais na estreia, no Cine Excelsior, e gostei tanto que eu queria ficar duas sessões. Eles me deixaram lá e o fato deu início a uma obrigação que me impus nos anos a seguir: ver duas sessões de todo filme.

Lembro inclusive que sofri para ver duas vezes o ótimo Nascido em 4 de julho, por ser um filme denso e longo, mas eu tinha que ficar, pois eu havia combinado de ir em um aniversário depois da segunda sessão, sendo que a pessoa ia me pegar na porta do cinema.

Na história, o policial de Los Angeles Martin Riggs e seu parceiro Roger Murtaugh recebem a tarefa de vigiar um contador corrupto prestes a testemunhar em uma comissão federal. A princípio, acham que é um trabalho de rotina, mas logo descobrem que o acusado está lavando dinheiro para o mesmo cartel de drogas sul-africano que estão tentando combater.

Intimidade

Com os caminhos aparentemente traçados dos personagens, convergindo suas histórias e afinidades, Riggs se integrou a família, demonstrando intimidade em diversas cenas, como quando ele cozinha e conta sobre o acidente fatal da sua esposa. Mas a história não se acomoda, aprofundando os personagens e justificando atos e consequências de situações passadas.

Há diversas situações emblemáticas que se completam ou se contrapõem. E vendo em sequência, podemos observar com clareza. No primeiro filme, Riggs perde a esposa. Aqui, ele descobre que ela foi assassinada, e quando finalmente se coloca disponível para um envolvimento, a sua nova namorada também é morta pelo mesmo assassino.

Tanto Riggs quanto Roger são atacados em suas casas com intenção de serem mortos. Roger leva um "abraço" de um bandido, e o mata, enquanto Riggs abraça um bandido, e também o mata. No primeiro filme, Riggs atira contra um helicóptero, enquanto neste filme, um helicóptero aparece atrás dele. 

Há um diálogo do vilão com Riggs, falando sobre bebida. Riggs diz que faz mal a saúde. Durante a produção, Richard Donner ficou chocado quando Mel Gibson confidenciou que estava bebendo cinco litros de cerveja no café da manhã. Apesar de seus problemas com o álcool, Gibson era conhecido por seu profissionalismo e pontualidade.

Ao longo de vários pontos do filme, Riggs propositalmente pronuncia erroneamente o nome de Arjen Rudd como "ariano", deliberadamente chama Pieter Vorstedt de "Adolf" e refere-se a Rudd, Vorstedt e seus associados como a "raça superior". Todas são referências a Adolf Hitler e aos nazistas, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. "Raça Ariana" ou "Raça Mestre" foi uma forma ideológica nazista, que se tornou um conceito para a supremacia branca.

A prática sul-africana do Apartheid era também outra forma ideológica de supremacia branca, razão pela qual Riggs fez estas comparações. Além disso, o fato de Vorstedt se parecer com Adolf Hitler ajudou a manter o apelido. Além disso, quando Rika (Patsy Kensit) entrega os faxes noturnos para seu chefe, Arjen Rudd (Joss Ackland), há uma águia estilizada na parede atrás dele, uma reminiscência do Reichsadler (a águia segurando uma suástica em suas garras), um símbolo da Alemanha nazista, que por sua vez foi baseado na Áquila, a águia romana.

A cena em que Murtaugh faz o seu discurso sobre "África do Sul Livre" - a sua declaração de "Um homem, um voto" tornou-se, de fato, parte da agenda do então presidente da África do Sul, FW de Klerk, para acabar com o Apartheid e libertar Nelson Mandela da prisão. Danny Glover interpretou Mandela em um filme feito para TV a cabo da HBO, Mandela (1987), que foi filmado antes do lançamento do primeiro Máquina Mortífera.

Números

Máquina Mortífera 2 custou US$ 30 milhões e rendeu mais de 4 vezes este valor, apenas no mercado americano. O faturamento total do filme foi de US$227,853,986. Na cena do desabamento de uma luxuosa casa envidraçada foi utilizada uma casa verdadeira no valor de US$ 350 mil, cujas fundações foram cuidadosamente enfraquecidas.

Easter eggs.

Em um diálogo do chefe com a dupla, ele diz para levarem Leo Getz na Disneylandia. O discurso "ok-ok-ok" de Leo foi baseado em funcionários da Disneylândia dando instruções aos convidados da Fantasyland. Foi Leo quem apresentou a Richard Donner a ideia de deixar Leo ansioso demais em agradar, com improvisações "ok, ok, ok" . Donner riu e disse: "Faça isso! Faça isso!" 

Na cena em que o garçom assassino sai da piscina, o Nakatomi Plaza do Duro de Matar pode ser visto ao fundo e bem perto. Joel Silver produziu ambos.

Enquanto a família Murtaugh espera pelo comercial, eles assistem Contos da Cripta (1989), primeira temporada, episódio dois, And All Through the House (1989) (o episódio psicopata do Papai Noel), que foi ao ar em 10 de junho de 1989, estrelado por Mary Ellen Trainor, que interpreta a psiquiatra policial Dra. Stephanie Woods na franquia Máquina Mortífera. Alguns episódios da série foram produzidos por Richard Donner.

Multiverso

Jenette Goldstein e Mark Rolston também apareceram em Aliens, O Resgate (1986), como Vasquez e Drake, respectivamente. O ator Michael Biehn (que em Aliens faz Hicks), foi cotado para o papel de Riggs. E no primeiro Máquina Mortífera, podemos ver claramente um letreiro escrito EXTERMINADOR. O Exterminador do Futuro é dirigido por Cameron, e tem Michael Biehn no primeiro filme e Jenette Goldstein no segundo.

E para finalizar

Conforme os comentários de Richard Donner, embora eles tenham rejeitado o rascunho original do roteiro de Shane Black principalmente devido ao final em que Riggs morre, eles ainda filmaram o final do filme de uma forma que pudessem editá-lo em dois diferentes versões dele; Riggs morrendo ou Riggs sobrevivendo. 

Após uma boa resposta do público durante a exibição-teste do filme, decidiu-se manter Riggs vivo. A última cena do filme, Riggs no chão, e Murtaugh segurando-o enquanto a câmera se afasta da cena para o ar, mostrando o nascer do sol, na verdade, era para usar no final onde Riggs morre, e é por isso que ele e Murtaugh não se movem durante a filmagem, então, de certa forma, o filme termina com Riggs morrendo devido aos ferimentos. 

É a magia do cinema, mostrando como a edição é importante para dar sentido ao que foi filmado. 

Aliás, uma última observação. Comecei o post do primeiro filme dizendo que "o cinema é uma poderosa ferramente para retornarmos no tempo. Momentos marcantes da vida podemo facilmente serem associados a filmes marcantes."

Eu assisti ao filme em 1989, lembro precisamente o que meu pai disse na cena em que Riggs planeja a invasão da casa das pilastras com Roger. Riggs diz que vai dar um sinal quando estiver pronto, e meu pai me disse: "Imagina o toco da merda que ele vai fazer". Ele tinha 48 anos. Hoje estou com 49, mas tenho a memória impressa no meu DNA. 

E posso afirmar: jamais estarei velho demais para isso...

Cinema é vida.

🔷Máquina Mortífera 3 (1992)

A adição de novos elementos passa a reger o universo de Máquina Mortífera. O vilão, em si, não representa nada nesta dinâmica. É só uma peça descartável (ainda que Jack Travis seja cruel) na linha temporal da família que se forma. O filme joga luz no crescimento dos filhos de Murtaugh, principalmente Rianne e Nick, na aposentadoria de Roger e no novo relacionamento de Riggs, agora com Lorne, que muito se assemelha ao próprio Riggs. 

Na trama, após provocarem a explosão de um prédio, os parceiros Martin Riggs (Mel Gibson) e Roger Murtaugh (Danny Glover) são rebaixados a guardas de rua. A dupla tem a chance de virar o jogo quando investigam, com a ajuda da oficial Lorna Cole (Rene Russo), um roubo de armas da polícia. O esquema está sendo comandado por um ex-policial corrupto, que mata qualquer um que resolver abrir a boca.

Há diversas cenas memoráveis, como a comparação das cicatrizes, a implosão inicial, a perseguição dos carros-forte e a perseguição com moto. Porém, é o filme que mais insere humor em sua narrativa, e sempre que ela entra em cena, parece excessiva.

Nos dois primeiros filmes, Jeffrey Boam foi chamado para tirar o tom sombrio do roteiro. Neste terceiro filme, parece que ele cuidou sozinho, ocasionando desequilíbrio no humor. E com isso, a reação negativa ao filme é unânime, ainda que, o fato de manter toda equipe desde o início, faz com que a produção não saia dos trilhos de forma mais trágica.

Curiosidades interessantes, relevantes e curiosas...

Richard Donner é um ativista dos direitos dos animais e pró-escolha, e colocou muitos pôsteres e adesivos para essas causas no filme. Destaca-se a camiseta usada por uma das filhas de Murtaugh (ideia da atriz), um caminhão de dezoito rodas com slogan anti-peles na lateral e um adesivo em um armário da delegacia. Veja também curiosidades de Teoria da Conspiração (1997).

A Câmara Municipal de Orlando, Flórida, ficou muito feliz em deixar a produção explodir sua velha e feia Prefeitura, com o produtor Joel Silver pagando US$ 165 mil pelo privilégio.

O diretor Jan de Bont (Velocidade Máxima, A Casa Amaldiçoada) trabalhou em Máquina Mortí­fera 3 como diretor de fotografia e fez também uma pequena participação no próprio filme, como um operador de câmara alemão. Ele também foi diretor de fotografia em Duro de Matar.

O canteiro de obras não foi um cenário construído para o filme, mas um projeto imobiliário real em Lancaster, Califórnia. Os incorporadores faliram antes que as casas pudessem ser concluídas. A produtora só poderia filmar lá após concordar em demolir completamente o local após as filmagens.

Quando Lorna Cole diz a Riggs “Close é uma loja de lingerie sem vitrine”, Riggs não sabe como reagir ao comentário. Este foi um improviso da atriz Rene Russo. Portanto, não só o personagem não entende, como também o ator Mel Gibson.

O barco de Murtaugh é chamado de "Código 7", que é o código do LAPD para uma pausa para o almoço.

Durante a perseguição do carro blindado, Delores, a excitada motorista do carro blindado que persegue Riggs (Mel Gibson), refere-se a si mesma como uma "Guerreira da Estrada". O personagem Road Warrior (também conhecido como 'Mad' Max de Mad Max (1979) e Mad Max 2: A Caçada Continua (1981), bem como sequências) é o papel que tornou Gibson famoso para o público norte-americano.

Quando o prédio explode no início do filme, o som estrondoso é o mesmo usado em King Kong (1976) para o macaco.

Na cena em que Rianne é "demitida" devido a Riggs interromper a filmagem, Riggs afirma: "Em qualquer dia normal, eu daria um soco na sua boca." e então o faz, afirmando que é um dia normal. Este é um retorno/referência ao clássico de John Wayne - McLintock, que apresenta uma cena de John Wayne afirmando o mesmo antes de dar um soco em um homem que o estava empurrando.

Riggs (Mel Gibson) come biscoitos de cachorro para parar de fumar. Em Mad Max 2: A Caçada Continua (1981), o personagem de Mel come uma lata de comida de cachorro para sobreviver no duro sertão australiano após uma guerra nuclear.

E para finalizar:

É o filme de maior sucesso da série, com 321 milhões para um orçamento de 35. E é o mais criticado. Vai entender como funciona a cabeça do público.

🔷Máquina Mortífera 4 (1998)

Máquina Mortífera sempre foi um filme sobre a desconstrução dos passados de pessoas que convergem e formam uma família. Na história deste quarto episódio, a polícia de Los Angeles descobre uma quadrilha que promove a entrada de chineses nos Estados Unidos e que serão vendidos como escravos. 

Por trás desta operação está "Tio Benny", o chefão de uma grande quadrilha em Chinatown, com tudo isto estando ligado uma trama de falsificação da moeda chinesa em grande escala, para libertar quatro grandes criminosos.

E já em sua cena inicial, uma desastrosa abordagem a um criminoso, tem o único propósito de informar ao público que Riggs vai ser pai e Roger avô. E não muito tempo depois, o barco de Roger também é destruído (e posteriormente, a casa), um sutil recado do perigo intenso que passarão em diversos momentos e, ao mesmo tempo, um conforto de que todas as perdas serão materiais.

Ao contrário dos demais vilões, Jet Li dá a vida a um personagem cruel, letal, e no auge da sua forma física, enquanto Roger e Riggs estão perdendo terreno para a idade que avança. Este não foi apenas o primeiro filme produzido nos Estados Unidos de Jet Li, mas também a primeira vez que ele interpretou um vilão.

Richard Donner pediu a Jet Li que diminuísse a velocidade durante as sequências de ação, porque ele estava se movendo mais rápido que a velocidade do obturador da câmera e não estava sendo registrado no filme. Jackie Chan foi cogitado para o papel de Wah Sing Ku, mas recusou, pois optou por nunca interpretar o vilão em um filme.

O roteirista Channing Gibson estava com três quartos de seu último rascunho, quando Chris Rock foi contratado. Butters foi originalmente escrito para ser um detetive policial gay, mas assim que as filmagens começaram, todos os envolvidos perceberam como a decisão de torná-lo gay não funcionou, então seu personagem foi reescrito novamente, para ser o marido da filha de Roger, Rianne. Mesmo assim, mantiveram uma piada sobre a sexualidade de Butters.

Apesar de Butters (Chris Rock) e Rianne (Traci Wolfe) serem um casal, com um bebê a caminho, eles nunca trocam uma palavra em voz alta. Isso porque seus personagens não foram originalmente escritos como um casal secreto, mas devido às muitas reescritas do roteiro.

A Warner Bros só tomou a decisão de dar luz verde do filme no final de 1997, percebendo que não tinha grandes lançamentos agendados para o verão de 1998. Na verdade, a produção do filme começou em janeiro de 1998, enquanto o terço final do filme nem havia sido escrito. 

A tecnologia de telefonia celular evoluiu consideravelmente ao longo dos onze anos da série (1987-1998), como é mostrado durante a cena em que Butters e Leo Getz discutem telefones celulares e golpes de empresas de telefonia celular. Butters menciona que os celulares são cada vez menores, para que as pessoas tenham maior probabilidade de perdê-los. O celular que Butters tinha era bem menor e podia ser facilmente guardado nos bolsos, quando comparado ao celular original apresentado em 1987, que era grande demais para caberem nos bolsos ou no coldre de cinto.

Quando Riggs está lutando contra Wah/Jet Li, Wah usa um chute de escorpião para derrubá-lo. Um ano depois, este se tornaria o movimento característico de Trinity, em Matrix (1999). A atriz de Trinity, Carrie-Anne Moss, não tinha flexibilidade e força para fazer isso, então eles usaram uma perna falsa. Curiosamente, o papel de Seraph em Matrix Reloaded foi escrito para Jet Li.

Easter eggs

Assim como no segundo filme, neste também aparece o prédio usado em Duro de Matar, durante a cena em que Leo segue Roger, Riggs e Butters, em torno de 40 minutos. 

Quando Riggs e Lorna estavam discutindo sobre ela ter ouvido um boato de que Murtaugh estava "preso". Riggs disse brincando: "Tentei convencê-lo a aceitar dinheiro". Em Máquina Mortífera 2 (1989), quando os dois estavam presos em um contêiner cheio de dinheiro dos traficantes, Riggs tentou convencê-lo a pegar parte do dinheiro e fazer algo de bom com ele.

Caótico.

Para finalizar... o fim...

O nascimento do filho de Riggs é tão caótico quanto a trajetória do personagem. E durante a sequência ainda se casam da forma mais alucinada possível. Mas a cena representa a essência dos personagens, e com Leo em cena, finalmente fazendo parte da família.  

O alívio cômico das situações reforçam a ideia que o filme todo passou: havia muito em jogo. Havia muito a perder. Ao término do filme, várias fotos de integrantes do elenco aparecem em cena, formando um grande álbum. Podem ainda ser vistas fotos de todos os quatro filmes da série Máquina Mortífera, incluindo fotos dos bastidores de cada um dos filmes.

E assim se encerra uma das mais divertidas e bem produzidas franquias de ação do cinema. E este post é dedicado ao gigante Richard Donner, que partiu em 5 de julho de 2021, mas deixou alguns dos filmes da minha vida: Superman: O Filme, A Profecia, O Feitiço de Áquila, Goonies, os Máquinas Mortífera, além de produzir Garotos Perdidos e X-Men (filme que iniciou a estrada para os filmes de heróis de hoje).

Obrigado Donner. Você me ensinou que o homem podia voar, que o demônio teria o 666 sob os cabelos, que o amor pode ser separado pela inveja, mas sempre "arruma" um modo de se encontrar novamente, que os heróis podem fazer parte do nosso universo e finalmente, o que é uma verdadeira família.


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